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RENATA CORDEIRO



O Samba e o prefeito

Muitos tem falado que o alcaide do Rio tem horror a carnaval e por isso não entregou as chaves da cidade como manda o protocolo. Meia verdade. Crivella, hoje prefeito, recebeu a pior e mais contundente vaia que já presenciei alguém receber na quadra da Portela, próximo ao carnaval de 2006, fato que foi notícia até no Ancelmo Góis, no O Globo. Veja, não foi num lugar religioso, foi na quadra de uma das mais importantes e tradicionais Escolas de Samba do Brasil onde estava por que fez questão de estar.
Se hoje, o já eleito prefeito quer distância do samba, naquela época, ainda candidato, tentou fazer um discurso que as vaias contínuas e implacáveis impediram.
Era dia de feijoada e eu e alguns outros jornalistas e atores da Record fomos convidados a receber um prêmio pelo trabalho desempenhado pela emissora. Eu, que já adoro um bom samba e ainda mais nesse berço de bambas que é a Portela, me prontifiquei rapidamente.
-É comigo mesmo!
E em meio aos melhores sambas o microfone anunciou a premiação e nos encaminhamos para subir ao palco. Juntos e orgulhosos fomos lá quando de repente, sem que ninguém o tivesse visto até então, surge o senador Crivella. Nos entreolhamos. Ninguém o vira ali até então…. Mas foi só ele ser anunciado e pegar o microfone para uma vaia engolir o som das caixas.
Úúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúú……
O presidente da escola retomou o microfone, disse que todos tinham que respeitar um senador da república e tornou a dar voz a Crivella.
Úúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúú……
Uma senhora muito respeitada, da velha guarda, tentou falar da veia democrática da Escola e deu voz novamente ao senador.
Úúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúú……
Desistiram. Deram o prêmio e ele se foi, para nosso alívio, que ali, em cima do palco, recebíamos as rebarbas daquela vaia acachapante.
Muito tem se falado na falta de educação de Crivella como de um anfitrião que faz uma festa e quando os convidados chegam, descobrem que o dono da casa- no caso nosso prefeito- foi embora. Não é verdade. A cidade não é do prefeito, seja ele quem for, muito menos o carnaval.
Para Crivella o samba não é contagioso na hora de pedir votos mas quando se elege sim.
Não faz mal. O político passa e o samba fica. O Carnaval e a paixão por ele ficam. E nem prefeito nem governador é dono de nada, por isso ainda bem que esse não entregou uma chave que não lhe pertencerá jamais.

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